Projeto foi criado por duas estudantes de arquitetura da UFSC

Quem deu um rolê atencioso pelo Centro de Floripa nos últimos tempos deve ter visto um lambe-lambe do projeto Lambe.ai colado em algum tapume ou parede. Com cartazes que juntam frases e imagens engraçadinhas, tipo “quem não cola não sai da escola” ilustrado com um velcro, o projeto criado por duas estudantes de arquitetura promove visibilidade lésbica por meio de arte e humor.

O lambe-lambe é uma manifestação artística de rua, feita geralmente para divulgar o trabalho de um artista/grupo ou para transmitir uma mensagem. Diferentemente do grafite, por exemplo, que leva tempo e deve ser feito no local onde ficará exposto, o lambe pode ser criado previamente e sua colocação é rápida – basta levar a arte impressa ou desenhada no papel até onde se deseja aplicar e colar. Por esse motivo e pelo baixo custo, foi aderida por ativistas de várias áreas em ações de resistência por todo o mundo.

Por aqui, a ideia do Lambe.ai nasceu despretensiosamente. Cristina e Bárbara* se conheceram na UFSC por meio do coletivo feminista Urbanas, criado pelas alunas do curso de arquitetura em 2016. Elas tiveram a ideia de um lambe e a primeira arte foi criada pela própria Cristina no Adobe Illustrator. O arquivo foi nomeado como Lambe – daí nasceu o nome Lambe.ai (o .ai é a extensão dos arquivos criados no programa). Bárbara já tinha experiência com a aplicação e as duas começaram a colar as imagens nas regiões do Centro e da Universidade.

Foto: Arquivo pessoal

“A gente começou sem muita pretensão de ser um super projeto. Eu acho que a falta de arte de rua sapatão em Floripa ajudou a gente a ter visibilidade. Antes eu via o Lambe.ai como uma coisa meio arte, meio ativismo, que eu queria fazer por mim e por querer que as pessoas soubessem que as lésbicas existem por toda parte. Mas a gente percebeu que pode ser bem mais intenso. É uma das coisas que se pode fazer para lutar contra todo esse cenário assustador de ataques e opressão que tá rolando no Brasil. Eu acredito muito que a arte de rua pode servir como uma reflexão, e também como um incômodo para quem não concorda “, diz Bárbara.

Em agosto, uma foto de duas meninas se beijando no Centro de Floripa, em frente a um lambe com a frase “beije sua mina em público”, foi parar no perfil do Quebrando o Tabu no Instagram e fez com que o projeto ficasse mais conhecido. A imagem teve mais de 32 mil likes.

“Foi legal ter essa visibilidade, se sentir reconhecida por uma coisa que a gente faz porque gosta. Mas algumas pessoas questionaram a importância do nosso lambe. Enquanto não entenderem a importância de a gente se colocar na cidade dessa forma, a gente vai continuar. A nossa arte é de minas, feita por minas e para minas. Rola um discurso que tenta ser amigável mas é totalmente desmobilizador, tipo quando falam que vidas negras importam e alguém diz que todas as vidas importam. Esse discurso vem de um lugar privilegiado”, explica Cristina.

 

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Hoje, Bárbara está fazendo intercâmbio na Colômbia e aproveitou para colar uns adesivos do Lambe.ai nas ruas de Bogotá. No fim do ano, ela quer voltar para Florianópolis e continuar o projeto.

“Quando saiu a foto no Quebrando o Tabu, a gente deu uma olhada nos comentários e apareceu uma galera cobrando a gente representar gays ou representar todo mundo, afinal todos podem se beijar em público. Então a gente percebeu que, apesar de estar do lado de muitas lutas, nosso foco era a visibilidade lésbica mesmo, e que aquilo era político, sim”, conta Bárbara.

Lambe colado por Bárbara em Bogotá. Foto: Arquivo pessoal

Sua relação com a sexualidade é parecida com a de muitas meninas por aí – antes de entender que era lésbica, ela acreditava ser bissexual. Já Cris sabia que sentia algo por meninas desde mais nova, mas só se descobriu e se assumiu lésbica durante um intercâmbio, longe do convívio e da pressão dos amigos e dos pais, que são católicos. Agora, perto de terminar a graduação, ela decidiu ir ainda mais a fundo no tema e mergulhou no universo LGBTI. Sua pesquisa para o TCC é sobre o direito à cidade com foco nessa população.

“Estou estudando como as dinâmicas da cidade influem sobre a gente e como posso tornar o espaço mais amigável. A cidade é projetada para o homem branco, heterossexual, que tem carro. Minha ideia é pensar nessas questões e propor diretrizes e pequenas intervenções juntando arte, arquitetura e urbanismo. Trazer segurança para lugares inseguros e qualidade de vida para os mais seguros. A população como eu, de classe média e branca, acaba tendo um pouco mais de liberdade para andar de mãos dadas, por exemplo. Mas a Florianópolis do gay pobre, negro, periférico, das travestis e transexuais, não é a mesma que eu vivo. Se você planeja para uma minoria, melhora para todo mundo”, adianta a estudante.

*Em conjunto com as entrevistadas, decidimos publicar apenas o primeiro nome.